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Nome da revista:  Revista de Enfermagem Referência IVª Série
Edição:  Edição N.º 11
Data da edição:  2016-12-22
Comentários: 
Editorial:  Cuidado baseado na comunicação com abordagem multimodal;
Aplicação da informática e da inteligência artificial ao cuidado da pessoa com demência


Existe um número cada vez maior de pessoas com idade superior a 65 anos, em resultado do aumento da esperança de vida e da redução da mortalidade infantil. Estes feitos devem-se aos avanços socioeconómicos e na saúde pública e representam novos desafios para os cuidados geriátricos.
O Japão tem a esperança média de vida mais elevada do mundo, de quase 87 anos, e é a sociedade que está a envelhecer mais rapidamente no mundo desenvolvido (Ikeda et al., 2011; Reich, Ikegami, Shibuya, & Takemi, 2011). A percentagem de adultos com idade igual ou superior a 65 anos tem aumentado substancialmente: de 4,9% em 1950 para 26,7% em 2015. Além disso, estima-se que, em 2060, 39,9% da população japonesa tenha mais de 65 anos (Cabinet Office Government of Japan, 2016). Nesta sociedade em envelhecimento, a necessidade social de apoiar os idosos vulneráveis é cada vez maior, pelo que é crucial desenvolver o sistema de cuidados geriátricos antes da mudança global.
A demência é um declínio progressivo da função cognitiva que compromete gravemente a memória, o raciocínio e as competências sociais, interferindo com a realização de atividades da vida diária. Os Sintomas Psicológicos e Comportamentais da Demência (SPCD) referem-se a alterações na perceção, no conteúdo do pensamento, no humor e no comportamento que ocorrem frequentemente em pessoas com demência (Finkel & Burns, 2000). Os SPCD incluem vários sintomas, tais como agitação, agressividade, delírio, alucinação, depressão e apatia (Sampson et al., 2014), e representam um dos principais desafios na prestação de cuidados à pessoa com demência e aos cuidadores (Small, 2014). Uma dificuldade comum associada aos SPCD é a recusa de cuidados, impossibilitando a prestação de cuidados aos doentes e conduzindo a uma fraca qualidade de vida. Embora o próprio cuidado possa desencadear SPCD (Buhr & White, 2006), as metodologias adequadas ao cuidado de pessoas com demência não estão suficientemente exploradas.

A gestão adequada dos SPCD é essencial, tanto para as pessoas com demência como para os seus cuidadores, uma vez que muitos cuidadores sentem uma enorme sobrecarga nos cuidados com a presença de SPCD. Em relação à gestão dos problemas comportamentais da demência, após a exclusão das condições tratáveis, a abordagem não-farmacológica é a escolha preferencial.

O cuidado abrangente multimodal - Humanitude® - é uma metodologia de origem francesa centrada na perceção, emoção e comunicação oral de idosos vulneráveis, salientando uma abordagem multimodal na prestação dos cuidados que inclui contacto visual, comunicação verbal, toque e auxílio na verticalidade (Gineste & Pellissier, 2007; Honda, Giacinta Marescotti, & Gineste, 2014; Gineste & Marescotti, 2016). Esta metodologia tem 38 anos de experiência clínica em França, Portugal e outros países europeus. A implementação da Humanitude no Japão iniciou-se em 2012 e a eficácia desta metodologia foi comparada com a eficácia dos cuidados convencionais em instituições de cuidados agudos e continuados. Os resultados mostraram uma redução significativa nos SPCD em pessoas com demência em comparação com os cuidados convencionais, assim como a redução do burnout nos cuidadores profissionais que implementavam a Humanitude (Ito & Honda, 2015; Honda, Ito, Ishikawa, Takebayashi, & Tierney, 2016).

Esta metodologia tem sido ensinada como parte de um sistema de formação prática em contextos clínicos. Tendo em conta o rápido crescimento da necessidade de cuidados geriátricos, é necessário também um reforço do sistema de formação e avaliação para cuidadores. Aos projetos de análise dos cuidados juntaram-se investigadores na área da informática e da inteligência artificial. Nesses projetos, os cuidados diários prestados a doentes com demência foram gravados em vídeo e analisados através de técnicas informáticas. O protótipo do sistema de análise consistiu 1) no registo de comportamentos, 2) na visualização dos dados registados, 3) na análise quantitativa e 4) na criação de uma query de interpretação dos especialistas (Ishikawa, Ito, Honda, & Takebayashi, 2016). Os comportamentos dos cuidadores gravados em vídeo foram analisados com base nestes elementos e avaliados através de aspetos modais e multimodais que levaram ao desenvolvimento de software para avaliação das competências de cuidado (Aung et al., 2016). Os cuidados convencionais e os cuidados com Humanitude foram comparados ao nível dos cuidados orais e do auxílio à marcha em doentes com demência. A gravação para esta análise foi realizada na perspetiva de uma terceira pessoa. Durante os cuidados orais, observou-se a seguinte proporção de elementos da modalidade de comunicação e interação - contacto visual, comunicação verbal e toque: 0%, 20% e 0% nos cuidados convencionais, e 38%, 35% e 50% nos cuidados com Humanitude, respetivamente. No auxílio à marcha, observou-se a proporção de 0%, 40%, 0% (cuidados convencionais) e 13%, 22% e 36% (cuidados com Humanitude) de contacto visual, comunicação verbal e toque, respetivamente. Houve uma diferença significativa entre os dois grupos (p < 0,05; Honda, 2016).
A integralidade do cuidado define-se pela realização de duas ou mais modalidades de cuidado em simultâneo (p. ex., contacto visual e toque, comunicação verbal e toque, ou todos). A comparação da abrangência de interação descrita nos cuidados orais e no auxílio à marcha foi de 0%, o que significa que os cuidadores utilizaram apenas uma modalidade de comunicação durante a prestação de cuidados convencionais. Por outro lado, 40% dos cuidados foram prestados com mais de duas modalidades nos cuidados com Humanitude. Também houve uma diferença significativa entre as duas metodologias de cuidado (Honda, 2016). Atualmente, este software é usado para avaliar e formar cuidadores em contextos clínicos.

O registo de comportamentos nesta análise foi processado manualmente. Considerando a possibilidade de aumentar a eficiência do sistema de análise à cabeceira do doente, foi necessária mais tecnologia de avaliação e formação ao nível dos cuidados. Foi desenvolvida uma câmara de primeira pessoa com sistema de monitorização por acelerómetro e gravação de vídeo utilizado na cabeça. Este sistema portátil tem por objetivo obter as informações necessárias para avaliar as competências de cuidado através da 1) ocorrência de contacto visual, 2) distância entre o cuidador e o recetor de cuidados e 3) posição da cabeça e postura do cuidador (Okino et al., 2016). Neste estudo-piloto, desenvolveu-se o algoritmo de deteção visual e comparou-se os cuidados prestados por enfermeiros com formação em Humanitude com os cuidados convencionais prestados por cuidadores. Os contactos visuais durante a hora da refeição foram comparados manualmente. O enfermeiro com formação em Humanitude dedicou 30,1% do tempo de cuidado ao contacto visual, enquanto o cuidador convencional dedicou apenas 3,7% (Okino et al., 2016). O vídeo também foi analisado através de um sistema de análise automática de vídeo utilizando inteligência artificial. O resultado da análise automática do vídeo revelou que o contacto visual ocupou 39,3% do tempo nos cuidados com Humanitude e 0,1% do tempo nos cuidados convencionais(Okino et al, 2016). A análise automática de vídeos dos cuidados também pode ser utilizada como método manual.

Numa sociedade em envelhecimento, está a aumentar o número de pessoas com demência. Em 2015, estimou-se que 47,5 milhões de pessoas viviam com demência a nível mundial (World Health Organization, 2016). A demência é uma doença progressiva e incurável, portanto a prestação de cuidados adequados é fundamental.

A singularidade da Humanitude é a sua abrangência multimodal através de contacto visual, comunicação verbal, toque e auxílio na verticalidade. Observou-se uma diferença significativa na abrangência das modalidades entre cuidados convencionais e cuidados com Humanitude. Os resultados mostraram que, mesmo os cuidadores convencionais que acreditam estar a ver os doentes, estabeleceram pouco contacto visual na comunicação com os doentes. Apesar de os cuidadores tocarem nos doentes durante a prestação de cuidados, os resultados do estudo sugerem que, nos cuidados convencionais, esse toque se centra nas tarefas que devem ser realizadas, havendo falta de comunicação com os recetores de cuidados. A comparação da abrangência não revelou qualquer abrangência intermodalidades ao nível da comunicação nos cuidados convencionais. Observou-se a mesma tendência na análise do vídeo captado pela câmara de primeira pessoa. Os resultados desta análise podem ser usados na avaliação dos cuidados e, sobretudo, na formação dos cuidadores.

Face à crescente necessidade de cuidadores ao nível mundial, é fundamental haver a oferta de formação de qualidade para os cuidadores, bem como de abordagens não-farmacológicas à demência. O sistema de cuidados com base na análise automática de vídeo foi avaliado no estudo de comparação, seguindo a mesma tendência da análise manual de vídeo (Okino et al., 2016). Sugere-se que a análise automática de vídeo pode seja aplicada à formação dos cuidadores, de forma a permitir um maior número de atividades de formação, uniformizando a formação dos cuidadores e reduzindo os custos de formação.

Por último, estes estudos foram realizados em contextos colaborativos internacionais. A expansão da colaboração numa aliança internacional de investigação contribuirá para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos idosos ao nível global.

Miwako Honda, MD
Diretora
Departamento de Investigação Geriátrica
Organização Hospitalar Nacional, Centro Médico de Tóquio
E-mail: honda-1@umin.ac.jp

Referências bibliográficas
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Buhr, G. T., & White, H., K. (2006). Difficult behaviors in long-term care patients with dementia. Journal of the American Medical Directors Association, 7(3), 180-192
Cabinet Office Government of Japan. (2016). White papers 2016. Retrieved from http://www8.cao.go.jp/kourei/whitepaper/w-2016/zenbun/pdf/1s1s_1.pdf
Finkel, S. I., & Burns, A. (2000). Behavioral and psychological symptoms of dementia (BPSD): A clinical and research update. International Psychogeriatrics, 12, 9-12
Gineste, Y., & Marescotti, R. (2016, April). Humanitude: A revolution. Tokyo, Japan: Seibundoshikosha.
Gineste, Y., & Pellissier, J. (2007). Humanitude: Comprendre la vieillesse, prendre soin des hommes vieux. Paris, France: Armand Colin.
Honda, M. (2016). Video-based education and analysis system for professional caregivers on cognitive impaired elderlies. In ICT- Bio Asia Workshop, Kuala Lumpur, Malaysia.
Honda, M., Ito, M., Ishikawa, S., Takebayashi, Y., & Tierney, L. (2016). Reduction of behavioral psychological symptoms of dementia by multimodal comprehensive care for vulnerable geriatric patients in an acute care hospital: A case series. Case Report in Medicine, 2016, 1-4. doi: 10.1155/2016/4813196
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Ikeda, N., Saito, E., Kondo, N., Inoue, M., Ikeda, S., Satoh, T., … Shibuya, K. (2011). What has made the population of Japan healthy? Lancet, 378(9796), 1094-105.
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Ito, M., & Honda, M. (2015). An examination of the influence of Humanitude caregiving on the behavior of older adults with dementia in Japan. In Proceedings of the 8th International Association of Gerontology and Geriatrics European Region Congress, Dublin, Ireland, 23–26 April 2015. Dublin, Ireland.
Okino, Y., Nakazawa, A., Honda, M., Ishikawa, S., Takebayashi, Y., & Nishida, T. (2016). Evaluation of care skills using a head-mounted camera. IEICE: Technical Report, 116(39), 95-100
Reich, M. R., Ikegami, N., Shibuya, K., & Takemi, K. (2011). 50 years of pursuing a healthy society in Japan. Lancet, 378(9796), 1051-1053. doi: 10.1016/S0140-6736(11)60274-2
Sampson, E. L., White, N., Leurent, B., Scott, S., Lord, K., Round, J., & Jones, L. (2014). Behavioural and psychiatric symptoms in people with dementia admitted to the acute hospital: Prospective cohort study. British Journal of Psychiatry, 205(3), 189–96. doi: 10.1192/bjp.bp.113.130948
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