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Nome da revista:  Revista de Enfermagem Referência IVª Série
Edição:  Edição N.º 9
Data da edição:  2016-05-30
Comentários: 
Editorial:  Comunicação Enfermeiro-Doente num Contexto Cultural Tailandês


A cultura influencia os costumes, os comportamentos, as interações, e a forma como as pessoas comunicam varia em função da sua cultura. Por isso, é fundamental compreender a forma como os tailandeses comunicam e a forma como os enfermeiros interagem com os doentes num contexto cultural tailandês. Este fenómeno pode ser explicado por vários aspetos da cultura tailandesa, tais como a hierarquia, o Budismo, as questões sociais e culturais.

Na comunicação tailandesa, a ênfase é dada à “harmonia social” e isto está especialmente relacionado com as necessidades dos outros. Portanto, os tailandeses comunicam geralmente de forma educada e amigável (Knutson, 2004, p.151), mostrando-se “sinceros”, “pacientes” e “com vontade de ajudar” (Burnard & Gill, 2008, p.67). Além disso, os tailandeses tentam comportar-se de forma a não incomodar os outros e a evitar situações embaraçosas ou de confronto. No sentido de desenvolverem boas relações, os tailandeses usam expressões que contribuam para as relações interpessoais, tais comomai pen rai” (que significa literalmente “não é nada” ou “não tem importância”), e tentam controlar as suas emoções e permanecer calmos em situações difíceis.

Os tailandeses acreditam no princípio do carma na doutrina Budista, segundo a qual devemos viver de determinada forma nesta vida se queremos ter uma vida melhor no futuro e na próxima vida. No Budismo tailandês, a confrontação não é aceitável (Burnard & Gill, 2008) e os tailandeses apenas raramente podem pedir favores ou recusarem ajudar os outros devido ao conceito de kreng jai, que é um elemento fulcral na comunicação tailandesa referente à forma como as pessoas evitam incomodar os outros ou imporem-se (Knutson, 2004) e como tentam fazer com que os outros se sintam confortáveis (Burnard & Naiyapatana, 2004). Os tailandeses têm por hábito pensar cuidadosamente antes de falarem, uma vez que receiam que o seu discurso possa magoar os sentimentos dos outros, o que iria contra as crenças budistas. A comunicação entre enfermeiros e doentes na Tailândia foi considerada uma comunicação indireta, unilateral (Burnard & Gill, 2008). Os doentes raramente fazem perguntas, se queixam ou expressam os seus verdadeiros sentimentos e emoções porque não querem incomodar os enfermeiros. De igual modo, é considerado indelicado e inadequado que os enfermeiros expressem as suas próprias emoções, pois eles também seguem o conceito de kreng jai. Além disso, a cultura Budista também influencia a forma como os doentes enfrentam e resolvem os seus problemas. Por norma, os doentes aceitam as situações difíceis em vez de procurar soluções (Burnard, 2005). Para os doentes, é mais fácil aceitar aquilo que os seus enfermeiros e médicos lhes dizem e concordar com os outros para os fazer sentir confortáveis. Ao mesmo tempo, eles sentem-se descontraídos porque não incomodaram ninguém.

O estilo de comunicação tailandês é influenciado pela sua estrutura social hierárquica (Mulder, 2000). Na sociedade tailandesa, as pessoas não são todas iguais (Burnard & Gill, 2008), sendo classificadas de acordo com diferentes estatutos sociais consoante a idade, profissão e antecedentes familiares. Desde muito jovens, os tailandeses são ensinados a respeitar os mais velhos no seu discurso, gestos e comportamentos não-verbais. Por exemplo, as raparigas usam a designação noo para se referirem a elas próprias quando conversam com idosos ou o pronome pessoal de segunda pessoa paa para se referirem a uma mulher de meia-idade. A utilização de khun antes do nome próprio da pessoa é uma forma comum de mostrar respeito e honrar as pessoas mais velhas ou com um estatuto social diferente. O recurso a expressões não-verbais é outra forma de demonstrar respeito. Na presença de idosos, os jovens tailandeses devem estar em silêncio; discordar dos idosos não é um comportamento aceitável. Além disso, os jovens geralmente cumprimentam os mais velhos com a saudação tailandesa wai (que consiste em colocar a palma da mão ao nível do tórax enquanto se faz uma vénia) para mostrarem humildade.

O conceito de hierarquia tem sido central na enfermagem tailandesa. Ao contrário da sociedade ocidental, existe uma hierarquia nos sistemas de saúde e enfermagem e a forma como os enfermeiros comunicam com os doentes depende do seu estatuto hierárquico (Burnard & Gill, 2008). Por exemplo, os doentes mais idosos são tidos em elevada estima quando comparados com os doentes mais novos. Os enfermeiros mais novos dirigem-se aos doentes de meia-idade usando os títulos paa (tia) ou loong(tio), demonstrando uma relação respeitosa e de proximidade. É este sistema hierárquico que fundamenta as relações enfermeiro-doente como uma forma de comunicação. Os enfermeiros mostram geralmente deferência em relação aos médicos, enquanto os doentes mostram geralmente deferência em relação aos enfermeiros. Isto deve-se talvez ao facto de os profissionais de saúde terem um estatuto elevado e o seu conhecimento profissional ser respeitado pelos doentes e de a comunicação assumir um papel relevante em enfermagem. A própria posição dos enfermeiros no sistema de saúde e o estatuto social dos doentes fora do hospital refletem-se na forma como comunicam. Apesar de os enfermeiros reconhecerem que deveriam tratar da mesma forma todos os doentes (classe social baixa ou alta), por vezes os enfermeiros podem dar ordens a doentes se estes pertencerem a um estatuto social inferior (Burnard & Gill, 2008). Por um lado, se os doentes pertencerem a um estatuto social mais elevado, é por vezes difícil para os enfermeiros interagirem com eles (Burnard & Naiyapatana, 2004), na medida em que podem considerar os doentes como sendo superiores. Por outro lado, os doentes avaliam o estatuto dos enfermeiros no sistema de saúde de modo a estabelecerem a relação mais apropriada. Isto significa que os doentes precisam de distinguir os enfermeiros principais dos restantes enfermeiros. O estatuto do enfermeiro chefe é considerado igual ao do médico, que ocupa a posição mais elevada na equipa de cuidados de saúde. Portanto, o enfermeiro chefe é tido em elevada consideração. Este estatuto influencia a comunicação com os doentes. Os enfermeiros chefes estão sobretudo envolvidos em tarefas administrativas, dispondo de menos tempo para os cuidados de enfermagem e, por isso, interagindo com os doentes apenas ocasionalmente. Consequentemente, os doentes interagem sobretudo com os restantes enfermeiros, uma vez que estes enfermeiros pertencem geralmente ao seu estatuto social.

Na Tailândia, as relações enfermeiro-doente giram em torno da comunicação interpessoal (Burnard & Gill, 2008). De forma geral, é aceite que a comunicação enfermeiro-doente deve ocorrer no âmbito da ação terapêutica, centrando-se nas necessidades, nos sentimentos e nos pensamentos dos doentes (Videbeck, 2006) e tentando melhorar as competências de resolução de problemas, a aprendizagem e o autodesenvolvimento dos doentes (Antai-Otong & Wasserman, 2003). Contudo, a comunicação interpessoal é mais superficial e centra-se geralmente na partilha de ideias, sentimentos e experiências, satisfazendo as necessidades básicas de ambas as partes. Na cultura de enfermagem tailandesa, há maior probabilidade de os enfermeiros usarem formas de comunicação interpessoal (conversa casual ou simples) para se dirigir aos doentes, demonstrando respeito. Neste caso, embora seja reconhecida como sendo uma comunicação superficial e o seu objetivo principal não seja reunir informação, a conversa casual com os doentes ajuda-os a sentirem-se confortáveis e a estabelecerem relações terapêuticas, facilitando o diálogo (Burnard, 2003).

Em suma, a Tailândia tem uma cultura sensível e uma orientação vertical, com ênfase na ordem social hierárquica do topo para a base. A harmonia social é uma preocupação fundamental na sociedade tailandesa, sendo que os tailandeses a tentam manter adotando uma atitude delicada, amável e respeitosa. Devido à influência dos ensinamentos budistas, os tailandeses aceitam geralmente os outros e evitam o confronto, a fim de preservar as relações.

Rattikorn Mueannadon, Ph.D. MSN, RN


Bibliografia

Antai-Otong, D., & Wasserman, F. (2003). Therapeutic communication. In D. Antai-Otong (Ed.), Psychiatric Nursing: Biological and Behavioral Concepts. New York: Delmar learning.
Burnard, P. (2003). Ordinary chat and therapeutic conversation: phatic communication and mental health nursing. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 10, 678-682.
Burnard, P. (2005). 4th edition counselling skills for health professionals.
Cheltenham: Nelson Thornes.
Burnard, P., & Gill, P. (2008). Culture, communication and nursing. Harlow: Pearson Education.
Burnard, P., & Naiyapatana, W. (2004). Culture and communication in Thai nursing: a report of an ethnographic study. International Journal of Nursing Studies, 41, 755-765.
Knutson, T.J. (2004). Thai cultural values: smiles and sawasdee as implications for intercultural communication effectiveness. Journal of Intercultural Communication Research, 3(33), 147-157.
Mulder, N. (2000). Inside Thai society: Religion everyday life change. Chiang Mai: Silkworm Books.
Videbeck, S. L. (2006). Psychiatric mental health nursing. London: Lippincott Williams & Wilkins.
Ficha técnica:  Ver ficha técnica

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